09/05/2009 | Daniela Guiraldelli - Revista Abastecimento

Mais que Reposição

Responsável por organizar os processos que envolvem a armazenagem e a exposição dos produtos, também cabe ao repositor fazer o cliente encontrar na gôndola a mercadoria que procura. Porém, muito mais do que isso, hoje ele atua como um “gargalo” da loja, por onde todos os procedimentos que envolvem o controle do produto se afunilam e passam.

No estoque, além de manter a ordem, é parte do seu trabalho observar os produtos em falta e as datas de validade dos itens, e solicitar a troca das mercadorias vencidas. Quando está trabalhando entre os corredores da loja, é sua obrigação manter a limpeza e a organização nas prateleiras, levando em conta o fluxo de venda e repondo sempre que necessário, conferindo a precificação e impedindo que ocorram rupturas ou “buracos” no ponto-de-venda.

Além disso, mesmo que não seja esta a sua principal atribuição, muitas vezes caberá a ele atender o cliente, ocasião em que deverá mostrar boa vontade, educação e presteza para ajudá-lo a encontrar os itens que procura. “Engana-se quem pensa que o atendimento é praticado só por quem vende necessariamente algum produto. Ao entrar na loja, o cliente não sabe qual a função do pessoal que trabalha nos corredores. Muitas vezes farão perguntas, e o repositor deverá saber responder”, afirma a consultora da Robeliz Consultoria, Elimara Clélia Rufino.

São muitas as atribuições que deverão ser exercidas em apenas um dia de trabalho, e para executá-las com sucesso, esse profissional deve reunir vontade de aprender, comprometimento com a função e, acima de tudo, noções básicas do varejo, para garantir o produto certo na prateleira e a rentabilidade do negócio.

- Perfil

Antes de contratar um profissional para a função, os gestores devem estar atentos a alguns fatores. O primeiro deles é ter em mente que, além das responsabilidades da reposição, esse profissional fará uma série de outros trabalhos relacionados. Então, as características iniciais a serem observadas nos candidatos são a versatilidade e o dinamismo.

Para o trabalho de reposição, a agilidade é importante, pois no dia-a-dia fará parte da rotina carregar e abrir caixas, muitas idas e vindas da loja ao depósito e vice-versa, e, durante as horas de maior movimento, será importante contar com a rapidez para organizar as mercadorias na gôndola sem atrapalhar as compras do cliente.

Como é uma ocupação onde o funcionário está em constante movimento, cabe à empresa oferecer a ele o uniforme adequado ao serviço. Independentemente do tipo de produto que está repondo, é importante que ele evite uma postura e uma aparência relaxadas durante o horário de trabalho.

Também é importante desenvolver a curto prazo familiaridade com as categorias de produtos, para saber como armazená-los e manuseá-los corretamente.

Além disso, cabe ao repositor a responsabilidade pelo estoque, e, para isso, é fundamental que ele seja uma pessoa organizada. Cada loja tem a sua maneira de trabalhar com o depósito, e cabe a ele zelar pelo modelo estabelecido, caso contrário, na sua ausência, ninguém conseguirá localizar os produtos.

Ser observador também é importante. Ele deverá estar atento aos processos, pois só dessa maneira conseguirá apontar erros ou sugerir modificações aos gestores em vista de uma constante melhoria nos procedimentos.

A concentração também ajuda no desempenho diário. Imagine que ele passará por situações em que terá de repor mercadorias em meio a corredores cheios de clientes, com muito barulho à sua volta. Por isso, é importante que ele esteja concentrado na atividade que está executando.

No aspecto comportamental, ele está proibido de falar alto ou gritar dentro do depósito ou nos corredores da loja, andar arrastando os pés, falar palavrões, etc. Segundo o supervisor operacional da Rede de Supermercados Chama, Ramiro Xavier, como o trabalho de reposição geralmente é executado por rapazes entre 18 e 30 anos de idade, a empresa tem dificuldade para manter esse profissional por longos períodos, pois, além de problemas de comportamento, o fato de trabalhar domingos e feriados cria uma grande rotatividade no departamento. “Como são todos garotos, geralmente querem o final de semana livre, fator que, em conjunto com o trabalho puxado, faz com que tenhamos de contratar sempre”, explica Xavier. De acordo com ele, entre cerca de dez repositores contratados pela empresa, 60% permanecem no cargo por mais de um ano.

É importante que ele tenha, acima de tudo, espírito de equipe, pois no pequeno varejo o desempenho individual interfere diretamente no resultado da loja como um todo, e também é importante que ele tenha interesse e comprometimento com o trabalho. Com isso, o repositor aprenderá em curto prazo como funciona a dinâmica do varejo. Se relacionar tanto com colegas como com clientes também fará parte da sua rotina. Por isso, é importante saber se comunicar quando necessário.

- Dez em um

O repositor é o verdadeiro guardião do produto, e a sua principal atribuição, que é a reposição de mercadorias, não é uma tarefa tão fácil quanto parece. Ele precisa pensar em uma série de detalhes antes de posicionar o produto na prateleira. Itens de maior valor agregado, ou mesmo sazonais, devem estar na parte “privilegiada” da gôndola, entre 60 cm e 1,20 m de altura, na linha dos olhos do cliente, uma vez que só ficam nessa posição os produtos que vendem mais. Ele também deve zelar pelo conjunto visual da prateleira, que precisa ser interessante para o cliente. “Quanto ao layout, é importante trabalhar com jogo de cores. Tudo na mesma cor não é legal”, dá a dica o proprietário do Supermercado Villas, Rogério Tanabe.

Cabe ao repositor monitorar a validade dos produtos, trazendo do estoque para a loja a mercadoria que chegou primeiro, além de checar a precificação e preencher as lacunas no ponto-de-venda, para que não aconteçam “buracos”, fazendo com que o estabelecimento perca vendas e com isso a rentabilidade.

Outra parte importante do trabalho é o controle do estoque, uma vez que ele pode alertar os gestores sobre possíveis sobras, falta de mercadorias ou troca de produtos, além de tirar pedidos, bonificações, etc. “O repositor tem uma função muito importante, pois é ele quem manuseia o produto; portanto, ele tem a informação que lhe diz se o que está no estoque vai dar para o final de semana, a informação sobre a validade, etc. Com relação à data de vencimento, ele tem a obrigação de me avisar com um mês de antecedência, além de ter autonomia para ligar para o fornecedor e fazer a troca. É importante que ele tenha liberdade para resolver situações”, diz Tanabe.

Paralelamente ao controle do que a loja vende, cabe a ele manter a organização do depósito. Essa atividade engloba cuidados com o manuseio do produto para evitar perdas, armazenamento correto das caixas, respeitando a orientação do fabricante, etc.

Mesmo não sendo a sua principal atividade, inevitavelmente haverá situações em que o repositor atenderá o cliente. Em geral, esse momento ocorre quando ele está trabalhando na loja, e pode ser questionado pelo cliente sobre a localização ou o preço de algum produto. Quando isso acontecer, ele deverá estar preparado para tirar todas as dúvidas e ajudar a pessoa a encontrar o que precisa. “A habilidade de se comunicar deverá ser empregada em algum momento, pois, querendo ou não, ele se relacionará com pessoas. É importante que ele esteja preparado para dar uma resposta educada, cortês e gentil ao cliente. Caso ele não possa ajudar, deverá ser instruído para chamar ou indicar a pessoa certa na loja para atender à solicitação do cliente”, afirma Elimara.

- Treinamento

No formato do negócio do pequeno varejo, que é focado em oferecer uma melhor prestação de serviço ao cliente, a vantagem competitiva na maior parte das vezes não está no preço, mas nas pessoas. “O grande produto que o empresário tem a oferecer é o atendimento dispensado ao seu cliente”, afirma o consultor da T& G Treinamento, Sérgio Guimarães.

Porém, na visão do especialista, na prática acontece exatamente o contrário. Muitas vezes, o empresário está preocupado em primeiro lugar com os processos que envolvem o produto, e só depois se preocupa com o colaborador, talvez porque seja mais fácil lidar com mercadorias do que com pessoas, considerando o investimento em treinamento desnecessário e arriscado.

O que esse empresário não leva em consideração é que, ao não investir em treinamento, o colaborador fica estagnado, porém continua no quadro de funcionários da empresa, muitas vezes desmotivado e executando processos ultrapassados, que causam perdas ao negócio. “Treinamento é motivação, mas também é estimulação do desenvolvimento de um bom funcionário, fazendo com que ele ofereça um trabalho de qualidade”, define Sérgio.

Depois de treinar, também é importante acompanhar o desempenho, pois a rotina leva as pessoas a executar atividades de maneira automática, e a dar continuidade ao que o funcionário aprendeu. E como fazer isso?! Por intermédio de exercícios frequentes, que podem ser praticados em encontros menos desgastantes e custosos para a empresa. “Uma simples reunião com a equipe já se caracteriza como um treinamento”, explica Sérgio.

Antes de definir a grade de treinamento, é importante que o gestor faça um diagnóstico da equipe e dos processos para ver o que precisa melhorar. Quanto à dúvida a respeito de onde buscar essa capacitação, o varejista tem hoje à sua disposição muitos cursos oferecidos por entidades como o Senac, Sebrae e associações comerciais. Ele também pode ter acesso a essas informações recorrendo a vídeos disponíveis na Internet, ou mesmo no formato on line.

Pensando na melhoria do desempenho do repositor, já existem no mercado treinamentos de organização e controle de estoque, os quais, dependendo do nível de responsabilidade do profissional na loja, é muito interessante que ele curse. Mas é importante o varejista ter em mente que é sempre necessário oferecer um treinamento focado em atendimento, pois, em algum momento, o repositor precisará se relacionar com pessoas, e quando isso acontecer, ele deverá estar preparado para oferecer o melhor atendimento ao cliente. “O dono do negócio deve ter em mente o fato de que, independentemente do porte do negócio, do perfil da equipe e dos clientes, ele deve ter o cuidado de oferecer um trabalho eficiente. Aquele pensamento que diz que se atendo o público tal, não vou fazer direito, está proibido. Tamanho do negócio nada tem haver com o grau de competência”, define a consultora Elimara.

- É vedado ao repositor:

• Se negar a colaborar com os colegas de trabalho ou com os gestores, ainda mais em uma equipe pequena.
• Destratar ou ser mal-educado, tanto com colegas como com clientes.
• Adotar uma postura displicente, isto é, executar as atividades de qualquer jeito. Se ele executar o trabalho dessa maneira, essa atitude prejudicará o trabalho da equipe como um todo.
• Jogar as caixas ou produtos de qualquer jeito no depósito, armazená-las de ponta cabeça ou de maneira inadequada, contrariando as recomendações do fabricante.
• Deixar no estoque produtos jogados, que romperam a embalagem. Se a caixa rasgar, o produto deverá ir para a loja.
• Deixar os produtos vencidos fora do lugar apropriado.
• Ser desorganizado, tanto no depósito como na loja.

- Características importantes:

• Ser dinâmico
• Ser versátil
• Ser observador
• Ser ágil
• Ser organizado
• Ter espírito de equipe
• Saber se comunicar quando necessário

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