05/09/2013 | CRN Brasil - Adriele Marchesini

Investimentos no Brasil, uma janela que se fecha?

Cenário econômico já foi mais animador no País e nos demais componentes dos Bric: crescimento menor do que o esperado e inflação em picos promovem cenário de desamparo. Mesmo mais tímido, mercado de TI dá sinais de que sim, as coisas podem mudar para melhor.

Quatro corredores em uma pista de competição. O ambiente, porém, não é propício à velocidade: o solo é formado por um verdadeiro lamaçal. Um deles está com lodo até a cintura. Outro praticamente se afoga: a lama chega no peito. Um terceiro começa a se afundar na altura do joelho. O melhor deles, que segue na frente, vê que seus pés grudam naquele que é um ambiente hostil para que ele siga seu intento e chegue ao primeiro lugar ao fim da prova. É assim que a revista britânica The Economist retrata, respectivamente, Índia, Brasil, Rússia e China na capa de sua última edição de julho, cujo título é “Grande Desaceleração”. Estão lá, presos em suas parcas bases infraestruturais, os Bric, aqueles que se configuraram, nos últimos dois anos, como as grandes promessas de crescimento em um cenário global totalmente comprometido com a crise do subprime, que eclodiu em 2008.

Um verdadeiro choque, especialmente quando nos lembramos de uma capa da mesma revista publicada em 2009: nela, o Cristo Redentor, um dos símbolos do Brasil e principal ponto turístico do Rio de Janeiro, decolava como um foguete, representando um cenário totalmente positivo.

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O fato é que o vento parou de soprar em favor do Brasil. Os números representam um cenário inimaginável pouco tempo atrás. O Boletim Focus, pesquisa semanal divulgada pelo Banco Central com perspectivas para economia, mostra perspectivas de menor crescimento e mais inflação. O levantamento indicou no fim de julho a quarta elevação seguida na perspectiva oficial de inflação, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). Pela pesquisa, considerando as cinco empresas de análise que mais acertam as previsões, o Brasil deve fechar 2013 com alta média de 5,73% nos preços, ante uma meta de 4,5% estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (Copom). O dólar, por sua vez, deve encerrar o ano batendo 2,27 reais. O Produto Interno Bruto deve fechar o ano com 2,28%, ante perspectivas anteriores que beiravam 4% ou 5%.

“Estão acontecendo duas coisas: o cenário externo melhora e o interno mostra desaceleração”, pontua Alex Agostini, economista-chefe da agência classificadora de risco Austin Rating. “O País foi muito leniente com a taxa de inflação, permitiu que ficasse muito mais próximo do teto da meta, que é de 6,5%, do que do centro, que é de 4,5%. Isso prejudica o poder de compra, mexe com a estrutura, confiança diminui por parte dos consumidores e por parte dos empresários. Além disso, o Brasil se endividou muito e perdeu fôlego para investir”.

O fato é que para estimular o consumo interno, o governo promoveu desonerações fiscais. Choveram ações envolvendo o Imposto de Produtos Industrializados (IPI) para automóveis e linha branca. Isso estimulou a produção interna, que gerou empregos e levou, mais uma vez, ao aumento do consumo. Mas a ação paliativa, de curto prazo, não foi acompanhada de medidas estruturais ou de revisão de políticas já defasadas, como é o caso do sistema tributário brasileiro. O respiro, então, foi curto, assim como a medida que o motivou.

Na avaliação de economistas, a janela de oportunidade se fechou. Os dólares que vinham ao Brasil como alternativa de investimento se voltam para países como Estados Unidos, que seguem em momento de recuperação e são reconhecidos historicamente como receptores mais estáveis de aplicações. Fortes investimentos em infraestrutura, cujo tempo de maturação ultrapassa o período de quatro anos dos mandatos políticos, são desestimulados diante da possibilidade de um partido concorrente ser o inaugurador da benfeitoria e tomar, para si, os louros do projeto. “A última vez que tivemos um programa de investimento no longo prazo foi o 50 anos em cinco, do JK”, disse, referindo-se ao plano de expansão nacional trazido pelo presidente Juscelino Kubitschek (1956-1961). “Temos um processo eleitoral no meio do caminho, não podemos esperar uma grande mudança no curto prazo”, comentou Silvio Campos, economista da Tendências Consultoria.

Mas em TIC o cenário é mais animador. Segundo o Gartner, os investimentos em tecnologia para 2013 serão da ordem de 3,7 trilhões de dólares, evolução de 1,2% frente a 2012. O Brasil será responsável por 134 bilhões de dólares desse montante, verificando uma expansão de 6% em relação a 2012, de 126,3 bilhões de dólares.

“É evidente que todos os setores de serviços a tendência é positiva porque tem espaço de crescimento. Este setor há apenas cinco ou dez anos começou a decolar, então tem uma boa margem de expansão”, ponderou Campos. Ele faz, contudo, um alerta: o movimento econômico é regido pelas expectativas combinadas de todos os agentes do cenário. Quanto mais cai a confiança, menores são os investimentos. Se você sabe que a economia não está boa e que pode perder seu emprego, por exemplo, deixa de gastar com supérfluos e poupa o máximo possível. Com menos dinheiro injetado na economia, ela automaticamente cresce menos. É a chamada profecia autorrealizável.

Os dados estão aí. A expectativa é de que os próximos meses continuem marcados pelo pessimismo. Os competidores estão atolados – ou se atolando – na lama. Mas o que um corredor pode fazer, além de correr? Os passos podem ser mais lentos e será exigida uma dose a mais de força. Mas ficar parado, para um corredor, não é uma opção.

O que pensam os fabricantes? por Renato Galisteu

Dizem que fazer negócios em momentos de crise é igual a encontrar uma vaga para estacionar no shopping center em época de Natal: não se pode perder uma oportunidade. No mercado de tecnologia, se uma empresa cresce abaixo dos “dois dígitos”, parece sentença que a rebaixada ao patamar de “ex-companhia”. Neste momento, buscar novas oportunidades, tanto regionais quanto setoriais, é quase um imperativo.

Para Flávio Balestrin, diretor de canais e marketing da Totvs, o primeiro semestre foi desafiador. Segundo ele, o Brasil percebeu algumas patinadas em termos de burocratização e investimentos de infraestrutura, e agora existe um esforço conjunto para descomplicar a forma como as coisas são feitas em solo brasileiro. “A ficha está caindo. Estamos pagando algumas contas como País”, diz, abordando, também, processos tributários complexos que desaceleram expansões.

A Totvs cresceu neste semestre 15,8%, com maior demanda de serviços nas regiões Centro-Oeste, Norte e Nordeste, com destaques para os estados de Rondônia, Mato Grosso e Maranhão. O Nordeste, aliás, teve um desempenho melhor do que o Sul e Sudeste em volume de serviços. O direcionador para esses avanços fora do eixo comum de negócios é creditado ao programa de incentivo e crescimento das franquias da companhia. “Não paramos de investir; não se pode parar. Em épocas de crise, ficam mais claras as necessidades de retornos de investimentos e tomadas de decisão”, avalia. “Dessa vez, vamos sair [fabricantes no geral] da falácia da entrega de valor para o cliente. Este é o momento para fazer isso. É necessário.”

Na companhia, os segmentos de Saúde e Educação foram os grandes impulsionadores de negócios, principalmente em companhias de porte médio, com cerca de três filiais, conta Balestrin.

Presidente da operação brasileira da SAP e do escritório que constitui o sul da América Latina (Sola), Diego Dzodan diz entender que o Brasil não vive o melhor momento econômico, porém vê muitas empresas financeiramente saudáveis no mercado buscando produtividade e clareza nos negócios, duas “funcionalidades” alcançadas por meio da TI. A criação de diretorias comerciais por regiões alavancou tanto as vendas diretas como indiretas. “Passamos a trabalhar com gente que não falávamos antes”, conta. Centro-Oeste, Sul e Nordeste foram os destaques. No País, as vendas de software da companhia cresceram 107% no segundo trimestre do ano, impulsionados por esses novos compradores. Agronegócio, Governo, Instituições Financeiras, Energia, Manufatura e Óleo e Gás foram os destaques dentro dos números da fabricante.

Se pararmos para analisar, empresas de saneamento, energia, varejo e bancos existem por todo o Brasil. Embora em menor escala, todos demanda tecnologia. Os problemas são os mesmos que os primos ricos, mas em proporções menores, avalia João Felipe Nunes, diretor de canais e alianças da IBM. A companhia foi responsável por um dos maiores projetos de expansão de negócios do País, com 37 praças de atuação em todo território.

Para Nunes, atuar em regiões, áreas e segmentos diferentes trazem dois pontos: maior capacidade de entender e aprender com o mercado, e a falta de foco nos negócios. Ele explica que crescer, por muito tempo, foi sinônimo de aumentar o número dos resultados e não efetivamente expandir a proporção de negócios. Exatamente por isso, num passado próximo, todas as vezes que a companhia visava uma nova região as coisas não caminhavam tão bem, pois alguma demanda em São Paulo “fazia com que o time voltasse para a capital”.

Enquanto alguns pontuam o atual momento do mercado como uma crise, Renato Barbieri, diretor de vendas e marketing para canais da HP PPS, acredita que o País vive uma readequação de mercado. Não se trata de menores demandas ou negócios mais estreitos, mas sim de um momento de reavaliação das necessidades e simplificação das compras. Porém, elementos como as constantes altas do dólar criaram o ambiente de caos econômico, aumentando o pessimismo e fazendo assim, com que os investimentos ficassem longe dos grandes centros econômicos, que efetivamente sentem os impactos dessas ondas.

Embora tenha observado crescimento nas vendas de impressão no primeiro semestre (8%) e ter “efetivado a meta” junto aos parceiros na com ofertas de computação, Barbieri afirma que há muito para a companhia fazer para aproveitar os negócios fora dos grandes mercados. “Novas regiões capitalizadas, novos negócios para fazer e clientes para conquistar”, visualiza. “No caso da HP, nossa expansão é 100% baseada em canais, e os feedbacks que temos recebido são ótimos. O momento da empresa, porém, nos coloca mais ouvintes que atuantes [quanto a expansão].”

Se tecnologia se tornou intermediário de quase todo o tipo de proposta e crescimento, saber entregar essa ideia em formato de proposta e solução é fundamental. O mercado está sedento por empresas que ajudem os clientes a chegar mais longe. Os fabricantes querem isso. Aquela vaga que você está procurando está apenas esperando, basta ir no shopping certo.

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