Estaleiro já leva riquezas ao Nordeste.
A chegada da indústria naval começa a espalhar riqueza por Pernambuco. O enorme galpão branco erguido na bucólica Ilha de Tatuoca, no Complexo Industrial e Portuário de Suape, é o sinal mais aparente desta transformação. A construção do Estaleiro Atlântico Sul (EAS) injeta por mês cerca de R$ 50 milhões na economia do Estado com o pagamento de fornecedores, a compra de materiais e a mão-de-obra.
A mão de obra será uma das beneficiadas com os estaleiros - motivo pelo qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva insistiu em ressuscitar a indústria naval brasileira.
As contratações continuam aceleradas e a previsão é de 5 mil funcionários quando o EAS estiver funcionando em sua capacidade total, o que deve ocorrer no final de 2010.
Sem nenhum embasamento anterior na indústria naval, muitas vezes sequer no mercado formal de trabalho, os cerca de 2 mil funcionários já contratados pelo EAS têm que ser treinados para o corte de chapas de aço e a montagem dos navios. São cerca de 200 a 300 alunos por turma, a maioria jovens recrutados em escolas públicas de cinco municípios vizinhos e que têm, no mínimo, a oitava série do ensino fundamental.
"Nossa principal preocupação que era a falta de mão-de-obra qualificada na região está sendo superada porque os pernambucanos estão ávidos para ter uma profissão e mostram uma dedicação e uma motivação enorme", diz o presidente do Estaleiro Atlântico Sul, Ângelo Bellelis.
Parte dos postos de trabalho envolve alta remuneração - alguns salários são até maiores que a média de mercado por se tratar de profissionais especializados, muitos deles vindos de outros estados.
A sensibilidade dos nordestinos aliada a um alto nível de politização, segundo ele, dá uma boa combinação que, misturada à diversidade de funções e à origem dos funcionários, torna o quadro pessoal "muito interessante".
Mas também obriga os executivos e gerentes a aprimorar a comunicação interna e a postura de comando. Em duas paralisações, os funcionários reclamaram das condições de trabalho e do modo como eram tratados pelos chefes.
A queixa parece que deu resultados. No cargo há menos de um ano, o engenheiro eletricista e administrador de empresas, com experiência em indústrias multinacionais, Ângelo Bellelis, trouxe para a indústria naval estratégias de uma gestão mais moderna.
A cada três meses ele se reúne- com os trabalhadores no próprio galpão, abre espaço para perguntas e fala dos negócios, metas e resultados já alcançados e, mensalmente, faz um café da manhã com um grupo sorteado pelo setor de Recursos Humanos. Outro canal é o "viva-voz", urnas que recebem formulários onde eles reclamam, perguntam e fazem sugestões.
Missão complicada - O empreendimento, entretanto, conta com isenção total do ICMS, na aquisição de produtos da cadeia da indústria naval que vem se formando em Pernambuco, e nas vendas dos navios, plataformas (ou partes) e outros produtos que irá fabricar.
O benefício foi garantido pelo Programa de Desenvolvimento da Indústria Naval e de Mecânica Pesada no Estado (Prodinpe), aprovado pela Assembléia Legislativa de Pernambuco, em 2004, a fim de favorecer a instalação do empreendimento, e será ad eternun ou seja, sem prazo para terminar.
Em abril de 2010 sai o primeiro Suezmax construído em Pernambuco. Dois meses depois, serão os 36 blocos da P-55 que será finalizada no Porto de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Se tocar a execução do cronograma industrial não é uma missão simples, ela ganha ares de desafio quando se dá ao mesmo tempo em que o EAS se constrói.
A primeira esteira rolante foi instalada na última sexta-feira. Formada por duas traves com 45 metros de comprimento e capacidade para transportar blocos de aço de até 150 toneladas para a montagem dos navios, ela é um dos gigantes que já muda até o tráfego da região. O transporte entre a fábrica da Galvaniza e o galpão na Ilha de Tatuoca levou dois.
Investimentos içados - A partir deste mês, o galpão de 12 mil metros quadrados começa a dobrar de área. Ao mesmo tempo, o empreendimento assina contrato com o BNDES para a liberação de mais R$ 542 milhões do Fundo de Marinha Mercante. Os recursos vão bancar a ampliação e a compra de outros equipamentos de grande porte como os "Golias", dois guindastes tipo pórticos, de 1.500 toneladas e 110 metros de altura que estão sendo fabricados pela coreana WIA, na China. Para se ter uma idéia, a Samsung, segundo maior player da indústria naval mundial e uma das sócias do EAS, possui guindastes de até 600 toneladas.
Enquanto os guindastes são produzidos, os investimento são içados dos R$ 1,1 bilhão iniciais para R$ 1,4 bilhão e a capacidade de processamento do EAS quase triplica. Passa das 60 mil toneladas por ano para 160 mil toneladas.
A consolidação e a expansão de um projeto que foi tachado de "estaleiro virtual" é lastreada pelo aumento das encomendas que começaram com os dez navios Suezmax contratados pela Transpetro para a primeira fase do Programa de Modernização da Frota (Promef). Em seguida, o EAS ganhou a licitação para a construção da plataforma P-55 da Petrobras, estimada em US$ 400 milhões.
Na sequência, recebeu mais um fatia do Promef que havia sido ganha pelo Consórcio Rio Naval mas, como ele não chegou a sair do papel, foi repassada pela Transpetro para o Atlântico Sul. Serão cinco navios Aframax, num total de US$ 517 milhões ou cerca de R$ 1,3 bilhão. A próxima garfada poderá ser no Promef II. O EAS obteve o melhor preço nos lotes três Aframax e quatro Suezmax mas ainda terá que disputar com o Estaleiro Ilha S/A (Eisa) que ficou em segundo lugar. A conclusão deverá ser anunciada ainda este mês.
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